Esculturas e talhas sacras

Embora a imaginária sacra estivesse presente durante a Idade Média (476-1453), é a partir da Contra-Reforma (1545-1563) que a produção iconográfica e escultórica ganha um ímpeto maior. Além das imagens de santos e outras figuras católicas centrais, que passaram a variar em tamanhos e estilos, o entalhamento decorativo de forros, pilastras, capelas, retábulos, altares e mobiliários de igrejas também foi incorporado, dando movimento e intensidade à arquitetura e à experiência dos fiéis. A partir do século 16 em Portugal, o barroco de “estilo nacional” e depois “joanino” gradualmente intensificaram o uso de talhas, cada vez mais volumosas e profusas, com o douramento parcial ou total, a adoção das colunas de fuste espiraladas (ou “salomónicas”) em retábulos rebuscados, entre outros traços. Em meados do século 18, passa a predominar em Portugal o estilo denominado “rococó”, caracterizado pela adoção de tons pastéis para forros e paredes e de decorações mais delicadas, detalhadas e coloridas, marcada por elementos naturais como conchas e flores.

No Brasil, após os primeiros contatos com as artes sacras no século 16, a produção de esculturas e talhas para fins religiosos se tornou o trabalho artístico mais prolífico do período colonial. Produzidas por religiosos e leigos, incluindo artesãos indígenas, pretos e pardos, essas obras escultóricas refletem tanto as influências do barroco e do rococó, quanto características estéticas e elementos simbólicos de culturas não-européias. Focada em obras produzidas entre os séculos 17 e 18, a pesquisa identificou mais de 100 esculturas e talhas sacras desse período espalhadas entre igrejas e museus, e está atualmente analisando e selecionando aquelas de maior interesse com base em diversos critérios, incluindo a qualidade ou particularidades artísticas. Entre as esculturas, feitas em barro, madeira, marfim e elementos metálicos, interessam também as que possuem histórias de milagre, as de devoção popular e/ou sincrética, e as que refletem as relações entre colônias portuguesas como Goa, na Índia, e Macau, na China.

  • Imaginária seiscentista produzida por dois freis beneditinos: Agostinho da Piedade, que possui raras peças assinadas e datadas, e Agostinho de Jesus, seu principal discípulo, que também deixou diversos seguidores;

  • Obras de exímios escultores e entalhadores como Manuel e Francisco Xavier de Brito (datas desconhecidas), Francisco Manoel das Chagas, “o Cabra” (c. 1700-desconhecido), Antônio Francisco Lisboa, apelidado na época de “o Aleijadinho” (1738-1814), Valentim da Fonseca e Silva, o “Mestre Valentim” (1745-1813), entre outros;

  • Trabalhos em talha, como na Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrate no Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro (RJ), que preserva diferentes estilos artísticos, na Igreja de Santo Alexandre, no Museu de Arte Sacra do Pará, em Belém (PA), que reflete suas claras autorias indígenas, e na porta que hoje pertence ao Museu de Arte da Bahia, obra secular baiana do século 17.