Hagiografia e pinturas apaineladas
A produção artística na Europa durante a Idade Média (476-1453) era dominada por temas ligados à Igreja Católica, como cenas bíblicas e a hagiografia, que trata das vidas e milagres dos santos e mártires. No século 16, durante a Contra-Reforma e seu movimento artístico Barroco, narrativas hagiográficas ganharam força nos esforços de conquista e comunicação com fiéis. Nesse contexto, o “apainelamento” — técnica greco-romana de revestir forros, paredes, caixilhos de janelas e móveis com painéis de gesso ou madeira — se tornou muito utilizado para a transmissão dessas histórias. Em Portugal, o uso desta técnica é adotado especialmente no reinado de D. João V (1707-1750), quando o Barroco português, com influências espanholas, italianas e jesuítas, alcançou o auge de sua opulência.
Impulsionado pelo ouro brasileiro, o chamado “estilo joanino” é caracterizado pela presença de talhas rebuscadas e douradas em altares, retábulos e forros, incluindo o apainelamento de pinturas, além de colunas salomónicas (ou torsas), rica azulejaria e outros traços artísticos e arquitetônicos. No Brasil, a política colonial portuguesa proibia produções de natureza artística ou literária, com exceção das ordens religiosas. Por isso, a partir do século 17, o apainelamento de pinturas foi um dos principais recursos usados para decorar igrejas e catequizar novos fiéis, além de azulejos e esculturas. Além do impacto visual, a conjunção de painéis permitia realizar visualmente a catequização sem necessidade de um idioma comum ou de alfabetização. A pesquisa já identificou mais de 20 trabalhos de apainelamento, em grande maioria com pinturas sobre a vida de santos ou acontecimentos religiosos.
DESTAQUES
Entre os muitos usos do apainelamento tradicional, em “caixotões” retangulares, destacam-se a capela-mor da igreja do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro (RJ), a impressionante Capela Dourada, da Ordem Terceira de São Francisco, em Recife (PE), e a singela Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes (MG);
Entre os apainelamentos mais rebuscados em formatos octogonais, losangulares, entre outros, destacam-se a sacristia da Igreja da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Carmo em Salvador (BA), a Capela de São Roque em Olinda (PE) e a magnífica Igreja da Ordem Primeira de São Francisco, em Salvador (BA), cujas obras foram perdidas em um desmoronamento em 2025;
Painéis e pinturas avulsas, que originalmente compuseram decorações e conjuntos apainelados em Igrejas, especialmente a de grandes mestres como José Joaquim da Rocha, Manuel da Cunha, entre outros.
Igreja do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro (RJ)
Frei Ricardo do Pilar, séc. 17
Igreja da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Carmo em Salvador (BA)
Frei Eusébio (de Mattos) da Soledade, séc. 17
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção em Viçosa do Ceará (CE)
Autoria diversa e não identificada, séc. 17-18
Capela Dourada em Recife (PE)
Autoria não identificada, séc. 17-18
Centro Cultural São Francisco em João Pessoa (PB)
Autoria não identificada, c. 1700-1710
Igreja e Convento de Santo Antônio em Igarassu (PE)
Autoria não identificada, séc. 18
Igreja da Ordem Primeira de São Francisco em Salvador (BA)
Frei Jerônimo da Graça, séc. 18
Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes (MG)
Antônio Caldas, séc. 18
Igreja da Ordem Terceira do Carmo em Recife (PE)
José de Deus Sepúlveda, séc. 18
Capela de São Roque em Olinda (PE)
Autoria não identificada, séc. 18
Armário da Igreja da Ordem Terceira do Carmo em Cachoeira (BA)
Charles Belleville, séc. 18
Mosteiro de São Bento em Olinda (PE)
Francisco Bezerra, c. 1790
Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré em Vigia (PA)
Autoria não identificada, séc. 18
Nossa Senhora da Conceição, oriunda de Taubaté (SP)
Autoria não identificada, séc. 18
Símbolos da Paixão de Cristo: Véu de Verônica
José Teófilo de Jesus, séc. 18-19
