D’mba, realezas e balangandãs
No recorte iconográfico da pesquisa, o grau de brutalidade e opressão cultural do sistema escravocrata se reflete de duas formas. De um lado, o protagonismo preto na arquitetura, nas artes, na construção intelectual e material do Brasil foi historicamente embranquecido, apagado ou pouco valorizado diante de sua real contribuição. De outro, é gritante a escassez de elementos iconográficos de autorepresentação negra dada a presença de africanos no Brasil desde o século 16 e que não lhes faltavam tradições artísticas, herdadas de grandes reinos e culturas da África.
Entre as raras peças identificadas, está uma escultura em madeira que representa D’mba (ou Nimba), divindade dos povos Baga e Nalu, na região da Guiné, onde é frequentemente usada sob os ombros e junto de vestes de palha durante rituais. Descoberta na década de 1980 por um pescador no leito do rio Ijuí, atual município de Santo Ângelo, região das Missões (RS), a peça é considerada a única escultura africana produzida no Brasil antes do século 19. Outros interesses da pesquisa incluem tradições e figuras sobre as quais existem vestígios iconográficos, como Chico Rei e a Congada, e os balangandãs, jóias-amuletos tradicionais da Bahia usados por mulheres negras libertas e caracterizados por sua penca de pingentes variados. O projeto também está realizando um levantamento ativo destes e outros objetos e imagens em pesquisas acadêmicas e coleções como o Museu Afro Brasil em São Paulo (SP), o Museu Afro-Brasileiro (MAFRO) em Salvador (BA), entre outros.
Com 46,4 cm de altura e 3,70 kg, a imagem de D’mba (Nimba) é caracterizada por cristas ou penteados, narizes alongados e salientes, seios pendentes e quatro pernas longas usadas de apoio nos ombros, com registros sugerindo que a peça tenha sido produzida por pessoas escravizadas da Guiné que passaram ou se fixaram na região Santo Ângelo (RS) entre 1756 e 1784;
Entre as diversas tradições de origem africana, pouco registradas durante o período colonial, uma exceção é o Congado no Sudeste, tradição sincrética cuja origem mineira está ligada à Chico Rei e às Irmandades de Nossa Senhora do Rosário, e que envolvia “embaçar” as proibições culturais impostas aos cativos misturando missas católicas com cortejos de coroação de reis e rainhas em festejos representados por Carlos Julião no século 17.
D'mba/Nimba
Prefeitura de Santo Ângelo, séc. 18-19
D'mba/Nimba
Prefeitura de Santo Ângelo, séc. 18-19
Planta do Quilombo de São Gonçalo em Minas Gerais
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), 1769
Viola que tocam os pretos
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), 1783-1792
Marimba [...] que usam os pretos
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), 1783-1792
Coração de um Rei negro [...]
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), c. 1780-1790
Cortejo da Rainha negra [...]
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), c. 1780-1790
Rei e Rainha negros na festa de Reis
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), c. 1780-1790
Traje de mulher negra forra
Fundação Biblioteca Nacional (Brasil), c. 1780-1790
Penca de balangandãs
Museu Histótico Nacional (Brasil), séc. 19
