Desenhos e peças etnográficas

Em 1777, no auge do movimento Iluminista, Portugal havia concluído uma série de reformas lideradas pelo Marquês de Pombal e viu ascender ao trono a rainha D. Maria I (1734-1816), filha de D. José I e primeira mulher a ocupar esta posição. Embora seu reinado tenha sido conturbado, Maria I também foi pioneira na realização de expedições científicas nas colônias, organizadas junto à Universidade de Coimbra. Nesse contexto, foram enviadas comitivas para Goa, na Índia, para Angola, Moçambique e Cabo Verde, na África, e para o Brasil. As viagens tinham o objetivo de descrever, recolher, aprontar amostras de utensílios utilizados pelas populações dos territórios coloniais portugueses, bem como de minerais, plantas e animais e, remeter todo esse vasto conhecimento para Lisboa.

Referida como “viagem filosófica”, a expedição brasileira foi incumbida ao naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), que havia deixado Salvador para se educar em Coimbra aos 14 anos. Acompanhado do botânico Agostinho do Cabo e dos desenhistas Joaquim José Codina e José Joaquim Freire, Rodrigues percorreu, entre 1783 e 1792, as capitanias do Grão-Pará, do Rio Negro, e do Mato Grosso, cobrindo boa parte das regiões Norte e Centro-Oeste. A viagem resultou em uma rara série de ilustrações e coleção etnográfica composta por objetos pertencentes aos povos da região, incluindo os Mawé, Munduruku, Tikuna e Jurupixuna. Com mais de 100 itens localizados até o momento, em sua maioria desenhos, a pesquisa está traçando o processo de dispersão dos objetos e desenhos originais da coleção, sua reprodução e circulação pelo mundo, e o retorno de exemplares ao Brasil. A expedição foi a primeira do seu tipo, servindo como referência e modelo para as que se seguiram no século 19.

  • Coleção formada por Alexandre Rodrigues Ferreira, com destaques para os desenhos, dos quais há exemplares no Brasil, e para as cuias decoradas, instrumentos para aplicação de rapé e máscaras da tribo Jurupixuna, entre outros itens hoje dispersos entre instituições científicas portuguesas em Coimbra e Lisboa;

  • Embora a expedição austro-alemã tenha sequestrado duas crianças indígenas e coletado 9.000 espécies de fauna e flora — todos levados para Munique, na Alemanha —, sua fama deve-se aos desenhos nas obras monumentais de von Martius, que se tornaram referências iconográficas sobre o Brasil logo antes da Independência.