Forros e perspectiva ilusionista
Embora o Barroco português não tenha expressões tão dramáticas quanto o espanhol ou o italiano, um dos elementos mais marcantes do chamado “estilo joanino” (1707-1750) de D. João V é a pintura ilusionista em forros de igrejas. Fortemente influenciada pela matemática e pela verve teatral do barroco, e aperfeiçoada pelo jesuíta italiano Andrea Pozzo (1642-1709), este estilo de pintura transforma forros planos em ilusões arquitetônicas que simulam colunas, domos e até o céu aberto. Trazida ao Brasil na década de 1720 pelo pintor português António Simões Ribeiro, que deixou obras no Colégio dos Jesuítas em Salvador (BA), a técnica foi passada para artistas como Domingos da Costa Filgueiras e José Joaquim da Rocha (c. 1737-1807), principal mestre da Escola Baiana, João de Deus Sepúlveda, ativo em Pernambuco, e Manuel da Costa Ataíde (Mestre Ataíde), em Minas Gerais, entre outros pintores de talento.
Com foco no século 18 e início do século 19, a pesquisa já localizou 40 pinturas ilusionistas em forros de naves e capelas em igrejas das regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Em geral, os estilos encontrados podem ser agrupados entre pinturas que cobrem totalmente os forros com diversos elementos e que predominam na Bahia; e pinturas em que o ilusionismo se restringe à junção entre o forro e as paredes, predominantes em Minas Gerais. Nesse último grupo — e em outras pinturas em forro da época sem efeito ilusionista que também serão contempladas pelo projeto—, a maior parte da superfície é pintada em cores sólidas e geralmente claras, com uma cena religiosa em um medalhão central. Exceções a esse modelo também serão consideradas, como a bela pintura no forro do Consistório da Igreja de Santo Alexandre, em Belém (PA), atual Museu de Arte Sacra do Pará, além de aspectos desafiadores para a conservação e casos de restaurações recentes.
- Pinturas que precederam a perspectiva ilusionista, mas já aplicavam-se direto no forro, como as de influência indígena na Igreja de Santo Alexandre (PA);
Pinturas pioneiras e impactantes na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro (RJ), na Igreja Matriz de Santa Efigênia, em Ouro Preto (MG), na Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia em Salvador (BA) e na Catedral de São Pedro dos Clérigos, no Recife (PE) de João de Deus Sepúlveda, todas no estilo de preenchimento total do forro;
Pinturas que utilizam cores sólidas no centro do forro, como na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em São Paulo (SP), na Igreja Matriz de Santo Antônio, em Santa Bárbara (MG), e na Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo em Sabará (MG).
Igreja de Santo Alexandre
Belém (PA), 1719
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência
Rio de Janeiro (RJ), c. 1732-1743
Concatedral de São Pedro dos Clérigos
Recife (PE), 1764-1768
Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia
Salvador (BA), 1773-1774
Santuário do Bom Jesus de Matosinhos
Congonhas (MG), 1773-1775
Igreja Matriz de Santa Efigênia
Ouro Preto (MG), c. 1730-1790
Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lapa
Salvador (BA), c. 1760-1790
Igreja da Ordem Terceira do Carmo
São Paulo (SP), 1796
Igreja de Nossa Senhora da Abadia
Cidade de Goiás (GO), c. 1790-1810
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis
Ouro Preto (MG), c. 1810-1812
