Habitado por grupos humanos há pelo menos 20 mil anos, os diversos povos originários do Brasil moldaram paisagens e culturas, deixando ricos vestígios de suas existências. Em 1500, quando os portugueses chegaram na costa de Pindorama, como chamava-se essa “Terra das Palmeiras” em tupi, encontraram povos falantes desta língua, como os tupiniquins, tupinambás e caetés. O registro mais famoso desse primeiro contato — a Carta de Pero Vaz de Caminha — relata trocas em que os primeiros receberam “um pano de penas de muitas cores”, “carapuças” e “sombreiros”, arcos, flechas e barretes, entre outros itens.
Ao longo do século 16, esse escambo de objetos com povos originários tornou-se parte da atuação de missionários religiosos e viajantes das colônias da França Antártica (1555-1567) e da Nova Holanda (1630-1654). Entre vestimentas, adornos, armas e outros objetos indígenas coletados, a pesquisa destaca os de origem tupinambá que circularam como acessórios exóticos para usos festivos e/ou se integraram às coleções reais e aristocráticas, como os “gabinetes de curiosidades” (Wunderkammer). Assim, mais de 20 objetos deste período foram mapeados em acervos de bibliotecas e museus etnográficos, sobretudo europeus, sendo os 11 mantos tupinambás (ou “assojabas”) e objetos como armas, redes, instrumentos e outras artes plumárias. Embora deslocados de seus significados, propósitos e usos, esses objetos precedem as imagens criadas sob o olhar colonial e preservam o poder imagético que os tupinambás exerceram sobre o imaginário europeu.